Nessas últimas semanas aconteceram muitas coisas ao mesmo tempo e eu acabei ficando sem tempo de atualizar. Me desculpem aqueles que ficaram achando que eu fui despejado, deportado, abduzido ou sei lá.
Bom, pra começar, a francização. Pois é, acabou que estou fazendo o tal do curso do governo. Na verdade, ainda bem que estou fazendo o tal do curso. Além de estar ganhando uma graninha pra estudar (eu também acho isso meio bizarro, mas quem sou eu pra questionar?), acabei conhecendo um monte de imigrantes que estão na mesma situação que eu, ou seja, chegando no fim do ano passado, sem emprego e sem falar direito nem francês nem inglês (calma que eu também não sou o Anderson!). Eu não tinha me tocado nisso antes, mas eu não havia tido contato com gente nesse estágio por aqui, só com quem já falava muito bem uma coisa ou outra, que já estava trabalhando ou que estava estudando. Enfim, conheci um monte de Dennis!
A turma é bem bacana. Tem colombianos, mexicanos, peruanos, uruguaios, romenos, russos, moldávios e (lógico) brasileiros. O engraçado é que eu nunca troquei uma palavra em português com eles, nem quando estamos sozinhos.
Lógico que foram formadas algumas panelinhas (principalmente com as européias), mas no geral o pessoal é bem acessível. Ficou até instaurado o Happy Hour de sexta-feira no bar da UQAM, a universidade onde temos aula. Quem organiza é o russo, como era de se esperar.
Além disso, de vez em quando a gente marca umas saídas fora do horário de aula, como nesse fim de semana quando fomos ao Festival en Lumière, que é um festival em comemoração à... nem sei! Aqui se faz festival de qualquer coisa o tempo todo!
Enfim, teve pista de glissage (um escorregador gigantesco feito de gelo) pro pessoal descer de trenó, roda gigante (à -15ºC? passo...), show de música, show de circo no esquema do cirque de soleil, salsicha na brasa, e uma série de outras atividades gratuitas durante a noite, tipo visita ao planetário, ao jardim botânico e outros locais turísticos daqui. Bem legal!
Além de aula de francês, a francização inclui uns cursos de procura de emprego e montagem de currículo, carta de apresentação etc. Essas estão sendo as aulas mais interessantes, mesmo porque o professor é muito bom. Foi o primeiro profissional daqui que disse exatamente o que estávamos sentindo por não estarmos trabalhando, estudando ou seja lá o que viemos fazer aqui. Ele explicou sobre os “olhos” daqui e os “olhos” de casa (no meu caso, do Brasil), que estão sempre nos questionando "porque diabos não estamos trabalhando ainda e ganhando muita grana depois de tanto tempo no Canadá?". Ele explicou sobre o processo de adaptação de quem acabou de chegar e não está com o francês na ponta da língua, e que querer pular essa etapa é o mesmo que puxar os cabelos pra ver se crescem mais rápido (que é o que eu estava fazendo... não puxando os cabelos, pulando a etapa, blz?). Na verdade, nos deu foi uma boa levantada de moral porque, assim como eu, todos estávamos começando a ficar desestimulados com a nossa situação atual (vide meu último post). Tudo isso que eu disse foi basicamente a mesma opinião de todos na sala.
A única coisa que me incomoda na sala é a arrogância da nossa professora principal. É uma argentina, imigrante também, mas que já está aqui há 20 anos. As aulas em si são boas, com muito conteúdo, bem explicado e etc. Mas a mulher regula tudo, desde permitir que achemos graça de alguma coisa até o que devemos e o que não devemos perguntar em sala porque, segundo ela, seria muita ignorância nossa desconhecer determinados assuntos, e isso perturbaria o andamento da aula. Me desculpem meus amigos argentinos: Evandro, Cacá, Liliana, Carlitos, Herrera e Escudero, mas vocês são um povo complicado! O bom que essa opinião é compartilhada por todos os outros latinos.
Fora a francização, estou indo na Integration Jeunesse, que eu também comentei no post passado. Na última semana eu fiz um exercício de descrição das minhas qualificações, mas por enquanto só como designer gráfico. Como desenhista industrial a conselheira achou melhor deixar pra depois. Esse lance de não ter profissão bem definida às vezes atrapalha as coisas por aqui...
Mas enfim, o resultado da última reunião foi que, como eu não tenho experiência em web (que é o que se espera de um designer gráfico por aqui), eu teria que procurar emprego como infografista (???), que é mais ou menos o designer gráfico que só trabalha com mídia impressa. Assim como vocês, eu também nunca tinha ouvido falar nessa profissão, mas quando entramos com essa referência nos sites de procura de emprego, transbordaram ofertas como o meu perfil. Lógico que fiquei animado com isso, mas acho que, mais que feliz, fiquei me sentindo um perfeito panaca por ter demorado 4 meses pra fazer essa descoberta. Troféu “sorvete na testa” pra mim! Mesmo assim ela se demonstrou animada pelo fato de, mesmo só ter procurado emprego da maneira errada, eu ter conseguido algumas entrevistas. Pra dizer a verdade, eu também!
Outra mudança, essa literalmente: vou sair do iglu. Pois é, papis e mamis vem (tem acento ou não?) me visitar. Uhu!
Bom, pra isso eu não poderia recebê-los aqui, lógico. Além disso, a Carol chega em breve, então tive que procurar alguma coisa maior (menor é que não poderia ser, dãããã...), o que me rendeu algumas histórias e algum trabalho em conjunto com ela, via Skype. A primeira foi de pesquisar apês nos lugares mais estranhos de Montreal. Não que aqui não seja estranho, mas essa cidade continua me surpreendendo, hehe. Aprendi a importância dos pontos de ônibus e ver que não dá pra contar só com metrô pra me deslocar por aqui, que apartamento de indianos costuma cheirar muuuuuito a curry (na verdade isso eu aprendi pelo apê da Tammy e do Gustavo em Reading. Aqui eu só confirmei), que aqui existe bairro de todas as culturas e religiões possíveis, que os prédios aqui são todos feitos de papel (quase que por inteiro) e que é praticamente impossível achar algum em perfeito estado por causa disso.
Mas a lição mais importante: existem malandros por aqui também. Um figurinha aí estava oferecendo um apê todo mobiliado, com TV a cabo, internet, e o diabo por um preço excelente. O detalhe é que ele estaria morando em Liverpool (a dos Beatles) e não poderia acompanhar o processo pessoalmente. Trocando alguns e-mails, ele pediu um depósito de garantia via Wester Union pra que ele mandasse a chave e pudéssemos avaliar o apê. Teoricamente seria um serviço totalmente seguro feito pela empresa e tals. Mas como achamos tudo muito suspeito demais, “googleamos” o nome do sujeito e achamos uma advertência de alguém que também quase caiu no golpe do cara. Sendo bem sincero, foi quase...
Enfim, essa semana fechei com um apê mais pro norte da cidade, no bairro judeu (Outremont). Ainda não é meu lugar preferido pra passar o resto da vida, mas a gente tem que fazer algumas experiências, certo?
Além de tudo isso, comecei a jogar o tênis de mesa canadense. Diferente do futebol canadense (que aqui é soccer também), o tênis de mesa é jogado da mesma maneira que no Brasil, mas eu tenho que contar os pontos em francês (foi bem fraquinha essa...). Mas (comentário técnico. Se quiserem, podem pular essa parte), não tem nenhum caneteiro, só classista. Ou seja, sou um alien pra eles! O bom é que eu faço uns pontos de backhand que ninguém entende como é que eu passo a bola. Infelizmente ainda to bem enferrujado e esses pontos de graça ainda não me ajudaram muito a ganhar muitos jogos (não que eu ganhasse tudo no Brasil, mas às vezes eu dava algum trabalho, vai...).
Eu tinha comentado também que eu ia jogar em Laval, que não é bem Montréal. Bom, eu descobri que Laval não é nada de Montréal e que eu deveria, inclusive, pagar passagem de metrô à parte pra sair de lá... Explicando melhor, eu tenho um passe de metrô mensal, que eu pago uma única vez no começo do mês e posso usá-lo o quanto quiser pra pegar ônibus e metrô na cidade. Uma das melhores invenções da humanidade! Mas em Laval, esse cartão não vale, simples assim. Então eu posso chegar lá, jogar meu ping-pong, mas tenho que pagar pra voltar pra casa. Pra quem tá com a corda no pescoço, que bosta, hein?
Bom, vou parar por aqui senão acabam os assuntos. E prometo manter o blog um pouco mais atualizado, ok?
Saudações à todos!
